Aquela vez que fiquei entre os 10 primeiros de um concurso mundial, que nem sabia que estava participando.

A primeira vez que ouvi falar do Vissla Creators & Innovators Upcycle Contest foi em 2016, quando vi o vídeo do Rodrigo Matsuda, da Lasca Woodworks, construindo uma mini simmons com tubos de papelão e outros materiais descartados. Lembro de ter ficado amarradão com a ideia de um concurso de upcycle voltado para o surf, mas achava que era algo que estava fora do meu alcance naquele momento. Passados 2 anos me deparei novamente com a chamada para o concurso e dessa vez decidi participar. Entrando no site, fiquei sabendo das regras e prazos para a versão internacional e a versão brasileira.  

 

1 – A ideia

Vontade de participar eu tinha, só faltava a ideia do que fazer. Passei algumas madrugadas pensando em diversas coisas que poderia fazer, algumas melhores do que outras. A minha primeira escolha foi fazer quilhas com lixo retirado das praias. Você ficaria surpreso com a quantidade de lixo que pode ser recolhido nas praias em 15 minutos. No dia seguinte segui para a praia da Macumba com um saco de lixo que rapidamente estava cheio de material reciclável, como canudos, garrafas, papéis e outras coisas. Depois de separar tudo, acabei mudando de ideia. A nova ideia era fazer uma prancha de madeira. Escolhi a alaia pelo tempo que tinha para terminar o projeto e enviar o vídeo para o concurso.

 

2 – O material

Já tinha bastante madeira de demolição na minha oficina, o que já servia como material de reuso para o projeto, mas quis ousar um pouco mais. Assim que vi uma porta velha de madeira, sabia que serviria para o meu propósito. Porém, não sabia se teria madeira suficiente, mas depois de medir, vi que tinha exatamente o que eu precisava.

 

3 – Preparação do material

Agora que já tinha a ideia e o material, bastava partir para a execução. O primeiro passo foi desmontar a porta e separar as peças que eu ia utilizar. Fiquei com 4 pedaços de mais ou menos 1,50m por 10cm por 4cm. O único porém eram os buracos das trancas e dobradiças e as 823 (talvez esteja exagerando um pouco) camadas de tinta que a porta carregava. Comecei o processo de aparelhamento das peças no desempeno, passei primeiro uma face para deixar ela completamente reta. Em seguida passei a face lateral para ter uma aresta no esquadro. Depois de repetir a operação para as 4 peças, fui para o desengrosso, para deixar a face oposta, paralela a face que já tinha passado pelo desempeno. Em seguida precisava cortar no meio as 4 peças para poder chegar perto da espessura que eu queria, e ter material suficiente para chegar na largura desejada da alaia. Passei todas as peças na serra de mesa, ficando então com 8 peças. O último passo do aparelhamento era voltar para o desengrosso e deixar todas as peças com a mesma espessura.

 

4 – Colagem e shape

A colagem era bem simples e para garantir que com o tempo a água não afetasse as junções, optei por uma cola epóxi náutica. Apenas separei as peças na ordem que eu queria, passei a cola, e apertei as peças com grampos. Depois de deixar a cola secando por alguns dias, tinha um bloco pronto para shapear.

 

Assim como em qualquer outra prancha, fiz diversas marcações na madeira, para ter certeza que quando desenhasse meu outline, teria um shape simétrico e bem distribuído. O momento era a hora da verdade, tinha que finalmente cortar o outline da alaia e começar a dar forma de prancha para aquele monte de madeira. Depois de cortado o outline, decidi shapear a prancha com uma plaina manual. Para o acabamento decidi seguir com uma camada de resina, que impermeabilizar totalmente a alaia.

Finalmente o projeto estava pronto, o vídeo estava editado e postado, restando apenas esperar pelo resultado.

 

5 – Resultado

Um tempo depois recebi uma mensagem da Vissla no Instagram comunicando que meu projeto tinha sido o escolhido para ser um dos finalistas da versão brasileira do concurso. Fiquei amarradão, enviei meu projeto para São Paulo para ser exibido junto com os dos outros finalistas. Como não pude estar presente na exibição fiquei sabendo do resultado apenas alguns dias depois, fiquei em segundo lugar. Para mim, ter sido escolhido entre os 10 primeiros já era gratificante demais, e ter ficado no Top 3 então era algo surreal. Mas não acabou por aí.

 

Na mesma semana que fiquei sabendo do resultado, recebi outra mensagem da Vissla. A princípio achei que era sobre a premiação do concurso brasileiro, mas quando abri a mensagem vi que estava em inglês, falando que meu projeto tinha sido escolhido como um dos 10 finalistas da versão mundial do concurso. Lembra que no site estavam as regras e prazos para a versão mundial e a brasileira? Então, o que diferenciava a inscrição da mundial para a brasileira, era o prazo. Todas as inscrições eram feitas com uma postagem no Instagram com a hashtag #CreatorsContest. Com isso quando me inscrevi para a brasileira estava me inscrevendo também para a mundial, sem saber. Imagina a minha surpresa quando li a mensagem da Vissla. Hoje o meu projeto está na Califórnia, e a Vissla poderá usar como mostruário ou decoração em qualquer loja da marca, e eu estou feliz com o reconhecimento e resultado do meu projeto.

 

Foto na Surfer Magazine:

https://www.surfer.com/features/2018-vissla-upcycle-contest-winners/

 

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